Natural de Bananeiras, município localizado no Estado da Paraíba, o surfista Fabio Gouveia, 40, começou a surfar aos 13 anos nos picos da região. De uma família classe média, com pai engenheiro agrônomo aposentado e a mãe professora, Fia começou a sonhar com o surfe ao ver os filmes do Rei do Rock, Elvis Presley, no Havaí.
“Aconteceu naturalmente, me apaixonei ao ver revistas. Pirei quando vi o Rico de Souza pela primeira vez na rede Globo e ficava completamente vidrado nos filmes na sessão da tarde com Elvis Presley e sua turma no Havaí. Meu interesse foi natural, só aumentando minha vontade de fazer do surfe minha profissão”, conta Fabinho.
De Bananeiras para os campeonatos na região Sul/Sudeste foi um pulo. Após sair do anonimato em 86, quando teve destaque na categoria amadora do OP Pro, Fabinho comprovou as expectativas e deixou sua marca na história com a vitória no Mundial Amador de Porto Rico, em 88.
No mesmo ano, Alfio Lagnado, proprietário da Hang Loose, resolveu investir em uma equipe para fazer bonito no circuito mundial. Lagnado teve a idéia de juntar Fabinho, recém vencedor do mundial amador, a Teco Padaratz, que havia acabado de chegar de um intercâmbio nos EUA.
A dupla mais vitoriosa do surfe brasileiro estreou em 1989 nas principais provas do Tour e Fia ficou em terceiro lugar no primeiro campeonato que disputou em ondas australianas, ganhando destaque na imprensa internacional, que considerou os brazucas como revelações do evento Quatro anos depois, Fabinho foi o quinto melhor atleta do mundo no ranking da Association of Surfing Professionals (ASP), além de ser o primeiro brasileiro a vencer uma prova do circuito mundial da mesma entidade. Dono de um estilo refinado, o atleta capaz de completar tubos quilométricos, abriu os olhos do mundo para o surfe brasileiro.
“Minha carreira começou com o intercâmbio Brasil e Estados Unidos em 87, em Floripa (SC). Ali aprendi assimilar competição e depois disso venci eventos brasileiros e fui campeão nacional no mesmo ano. O título me deu o passaporte para o mundial de Porto Rico, meu cartão de visitas para o Circuito Mundial da ASP. O Hang Loose Pro Contest 90 foi minha primeira vitória na elite e abriu as portas para outras vitórias importantes: Biarritz e Sunset em 91 e Japão em 92. Este último evento me ajudou a atingir o meu melhor resultado na ASP. Quinto na temporada”, recorda o surfista paraibano.
Fabinho não falava inglês e por isso a importância da ajuda de Teco, com esta missão extra-oficial. Quando começaram, o Tour tinha muitas provas abertas a todos os competidores, sendo que a elite era formada pelos Tops-16 e pelos Back-14, que competiam nas duas últimas rodadas. Em 92 ocorreu o desdobramento do Circuito e foram criados o WCT e WQS, primeira e segunda divisões dos campeonatos da ASP.
Entre 1990 e 2002, Gouveia venceu 11 eventos da ASP: três etapas do antigo circuito mundial (duas no exterior, na França e no Havaí), uma do WCT (no Japão) e sete do WQS (três no exterior, em Portugal, na Espanha e na França). De lá para cá são o atleta figurou 10 vezes entre os Tops-28 e acumulou cerca de US$ 500 mil de premiação no Tour.
O pior momento na carreira de Fabinho foi quando ele perdeu de cara no Pipe Master de 96, ficando de fora do WCT 97, após nove anos disputando o Tour. Muitas pessoas acharam que já tinha dado para ele, que acabou fazendo prevalecer o ditado de quanto mais velho, melhor.
Em dois anos, Gouveia recuperou seu posto entre os melhores surfistas do planeta e afirma que esta saída contribuiu para sua longevidade na elite. Foi em grande estilo o retorno de Fia, oito quilos mais magros, aos 28 anos de idade e com o surfe de linhas precisas ainda mais afiado, faturando além da reclassificação para o WCT, o título do WQS e do Circuito Brasileiro Profissional – que ainda não havia conquistado.
“Em 92, eu estava no auge, mas faltava experiência e coragem em ondas grandes. Não pretendia ser big rider, mas queria estar pronto para qualquer situação durante uma prova do WCT”, admite Fabinho, que acumula mais de 15 temporadas havaianas no currículo.
Fabinho também é bicampeão do evento especial realizado em piscinas de ondas no Japão, em 93/94. “Eles foram muito importantes. Venci Kelly Slater no auge de sua escalada, em um ano que ele me atrapalhou a conquistar um resultado melhor no ranking da ASP”. No circuito brasileiro, o atleta chegou ao topo em dois momentos: em 1998 e 2004. “Estes dois títulos eram um sonho, assim como o título do WQS em 98, reconhece”.
Nesses anos de Tour, Gouveia conquistou o respeito dos atletas gringos e arrancou elogios de atletas como Sunny Garcia e Kelly Slater. Muitos atletas estrangeiros, inclusive, eram vistos assistindo baterias do paraibano.
No Brasil não poderia ser diferente. Reconhecido pelos brazucas, foi eleito o melhor surfista do Circuito Brasileiro Profissional em 2001, de acordo com pesquisa do Data Surf. Na mídia brasileira, além do destaque nas revistas especializadas, o surfista abriu sua casa, localizada na Baía de Maracaípe (PE), em 98, para a revista Caras.
Fabinho saiu do WCT novamente em 2003. “Tinha planos de retornar, porém quando mais estava focado, contundi a coluna. Acabou resultando em cirurgia, quando ocupava a 14ª posição. Apesar de meu esforço, vi que o bonde acelerou e resolvi mudar o foco e fazer algumas viagens promocionais também”.
Desde o meio do ano passado, Fia mudou os planos e tirou o retorno ao WCT de suas metas. “Em 2008, não passei nenhuma bateria na perna européia, local que tenho tradição em me dar bem. Olhava as revistas e via as fotos mágicas de amigos fazendo surf trips ao redor do globo e eu só enfurnado nos eventos sem passar as baterias. Parei para pensar e acho que está na hora de mudar o foco. Então decidi dividir meio a meio a partir do próximo ano. Depois de conversar com a Hang Loose, o patrão achou viável e tracei novos projetos, explica”.
Durante o Hang Loose Santa Catarina Pro 2008, Fia teve o gostinho de competir novamente contra os Tops da elite mundial como convidado de seu patrocinador. “Adoro competir e sempre estarei em algum evento, seja ele profissional ou Master, especiais etc”. Agora, Fabinho tem acompanhado os passos do filho Ian nas competições, além de sempre estar em sessões de freesurfer com Ian e o mais velho, Igor. Apesar de não força-los, Fia deu toda estrutura para que estivessem com ele dentro da água. “O mais novo, o Ian, está na trilha das competições. Já o Igor não focou neste aspecto, mas vem evoluindo muito o surf acrobático”.
Constantemente, ele é comparado ao tricampeão mundial Tom Curren, por conta de seu estilo polido. Realmente sua maior fonte de inspiração é seu ídolo Curren, mas ele também cita nomes como Brad Gerlach e Picuruta Salazar, entre os surfistas que procurou se espelhar. Além do estilo, uma das marcas registradas do surfista é o carisma e a simpatia. Gouveia está sempre com um sorriso estampando no rosto. A única coisa capaz de tirar esse sorriso é a saudades da família quando compete no exterior. Casado com Elka Roichman, ele tem três filhos: Igor, Ian e Ilana.
A onda que mais marcou Fia foi Teahupoo, no Tahiti. “Tem essa onda no Fabio Fabuloso. Foi o tubo de minha vida. Muita sorte de ter um registro, pois eram 6:30 da manhã e o sol tinha acabado de sair”. Já a melhor trip foi para Mentawaii, em 97, com amigos que freqüentavam o WCT na época. Fomos gravar para um programa do Surf Adventures que rolava na TV”. Outro momento que marcou a trajetória de Fabinho foi a produção e estréia do documentário Fabio Fabuloso. “Foi meu maior prêmio na carreira", diz.
No último ano, dedicando-se mais ao freesurf, Fia encarou uma trip para Pasti, em Sumatra, Indonésia. E recentemente, esteve novamente no arquipélago surfando picos como ASU na companhia de seus parceiros do Tour.